A Refinaria Abreu e Lima (RNEST) é uma refinaria de petróleo em Ipojuca, no litoral sul do estado de Pernambuco. Sua operação é focada em diesel (70%) e foi, inclusive, projetada para produzir diesel S-10, produto com baixo teor de enxofre, de acordo com os padrões internacionais. A RNEST também produz nafta, óleo combustível, coque e gás liquefeito de petróleo (GLP).[1]

É a primeira refinaria inteiramente construída com tecnologia nacional.[2] A Petrobras considera que essa refinaria é a mais moderna já construída em território nacional e com o maior grau de automação.[1]

Quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou o projeto da refinaria, em 2005, ele tinha orçamento estimado em cerca de 2,5 bilhões de dólares. Após a descoberta de novas zonas produtoras no pré-sal e o cálculo de suas reservas, a previsão de investimentos subiu para 15 bilhões de dólares e em 2017 foi estimada em 18,5 bilhões de dólares, o equivalente a 56,8 bilhões de reais.[3][4][5]

De acordo com o Plano de Negócios 2026-2030, a RNEST está entre os projetos da carteira de implantação de base, que receberão investimento de 81bilhões de dólares, juntamente com outras unidades.[6]

Capacidade de refino prevista

O parque de refino da Abreu e Lima produz, principalmente, óleo diesel S10, o derivado de maior consumo no País. Cerca de 70% dos derivados ali produzidos são de óleo diesel, 32% a mais do que o normal,[7] e com baixíssimo teor de enxofre (10 ppm). O diesel é o derivado de maior importação do Brasil e sua produção no Nordeste permitirá atender à crescente demanda por derivados na região e o excedente poderá abastecer ainda o restante do mercado nacional.[7]

A refinaria tem capacidade produtiva de 130 mil barris de petróleo por dia, 7% do processamento de petróleo da Petrobras.[8]

O Plano de Negócios da Petrobras 2026-2030 prevê uma ampliação na capacidade de refino da RNEST de 172 mil barris por dia.Também há previsão de produzir mais 94 Mbpd de Diesel S10.[6]

A construção da refinaria

As primeiras obras relacionadas ao projeto de construção da unidade de refino tiveram início em 2007. Ainda em 2009 foi iniciada a construção civil dos prédios administrativos e de suporte da refinaria, incluindo a construção da casa de força, concluída em junho de 2009, com potência total instalada de 150 MW, que suprirá as grandes necessidades de energia da refinaria. A previsão era de que até 2011 estivessem concluídas as obras e tivesse início seu funcionamento, contudo isso não aconteceu.

Para fortalecer sua política de gestão social, a Petrobras priorizou também a contratação de fornecedores locais para a Refinaria Abreu e Lima.[9] Para a primeira fase da obra, a terraplanagem, foram contratadas 2 800 pessoas, sendo que 95% dos trabalhadores foram arregimentados no próprio estado de Pernambuco – uma das premissas do empreendimento. As chuvas normalmente intensas nesta região (1 500 mm/ano) provocaram alagamentos em todo o Estado e atrasos no cronograma desta etapa das obras.[10][11]

Histórico

Desde os anos 1970 se discutia a necessidade de construção de uma refinaria capaz de processar simultaneamente o petróleo pesado nacional e o importado da Venezuela, na época o maior produtor de petróleo da América do Sul. Os primeiros projetos discutidos entre o governo e a Petrobras já previam a instalação de uma refinaria no Norte ou Nordeste do Brasil, para baratear os custos de frete e aumentar a geração de emprego e renda na região. Um pré-acordo com a Venezuela prevendo a garantia do fornecimento para esta refinaria chegou a ser fechado, mas não foi implementado.

No início dos anos 1990, a reaproximação entre Brasil e Venezuela reavivou estes planos, a partir dos acordos de La Guzmania, assinados em 4 março de 1994, pelos então Presidentes Itamar Franco e Rafael Caldera. Entretanto os planos acabaram novamente adiados. Nos anos 2000, a aproximação da Venezuela com o Mercosul, conjugada com o aumento do consumo de combustíveis na região Nordeste, fortaleceu a necessidade do projeto, discutido publicamente pelo governo e pela Petrobras já em 2004-2005. Com a entrada da Venezuela no Mercosul, importar petróleo venezuelano ficaria mais barato e, assim, o lucro brasileiro ao refinar petróleo venezuelano e exportar derivados industrializados seria ainda maior.

A descoberta de novas zonas produtoras de petróleo no Brasil, no pré-sal, ampliou a necessidade de refinarias desta natureza, para que o país pudesse, no futuro, exportar derivados de petróleo, de valor agregado muito superior ao do óleo cru.

Petrobras e PDVSA

A associação da Petrobras com a PDVSA foi resultado de um total de onze acordos firmados entre as duas empresas, em um longo processo de negociações iniciado na primeira metade da década de 1990 (Governo Itamar Franco). A princípio a Petrobras seria sócia majoritária (60 por cento), tendo a PDVSA e a Renor Refinaria do Nordeste S.A. (empresa privada brasileira) respectivamente 35 e 5 por cento, como sócias minoritárias.

Em 2008 foi fechado o primeiro acordo entre a Petrobras e a PDVSA prevendo que o petróleo utilizado na refinaria Abreu e Lima fosse fornecido em partes iguais pelos dois países. As negociações entre a Petrobras e a PDVSA para a construção de uma refinaria no Brasil haviam sido iniciadas em 2003, quando chegou a ser discutido o projeto de criação de uma nova empresa petrolífera sul-americana, que não foi concluído.

O acordo firmado em 2008 previa ainda que a Petrobras receberia direitos de exploração de petróleo na principal região petrolífera da Venezuela, a Faixa do Orinoco. Após um novo e duro ciclo de negociações,[12][13][14] em 2012, o diretor do Abastecimento da Petrobras, José Carlos Cosenza, afirmou que o prazo da estrangeira iria até novembro daquele ano. O acordo previa instalações ainda maiores, com maior capacidade de refino.

Corrupção

Elevação dos custos

O valor efetivamente gasto na construção refinaria RNEST é alvo de intensas controvérsias.[15][16] Existem estimativas de que tenha custado 4,2 bilhões de dólares a mais do que deveria, de acordo com o relatório da CPI da Petrobras, que apurou denúncias de corrupção na estatal.[16] Esse valor considera o gasto total da implantação da RNEST, em Pernambuco.[15] No entanto existem especialistas que estimam que o custo efetivo da construção da RNEST, com um trem de refino em vez dos dois inicialmente projetados, tenha custado 16,5 bilhões de reais.[16][17]

Operação Lava Jato

Durante o processo de apuração das irregularidades ocorridas na Petrobras, investigadas pela Operação Lava Jato, entre elas a construção da Refinaria de Abreu e Lima, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, em depoimento na delação premiada, revelou a ocorrência de superfaturamento por parte das empresas envolvidas em cartel nas obras da estatal.[18][19] Um parecer técnico do Ministério Público Federal (MPF), de outubro de 2014, apontou um superfaturamento de 613 milhões de reais das obras da Unidade de Coqueamento Retardado (UCR) da refinaria Abreu e Lima.[20]

Em 23 de abril de 2017, informações da delação do ex-executivo da Odebrecht Márcio Faria da Silva à Procuradoria-Geral da República (PGR) constaram que as obras realizadas na refinaria renderam 90 milhões de reais em propinas para ex-executivos da Petrobras ligados ao Partido Progressista (PP), ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Segundo ele, as maiores empreiteiras do País se reuniram previamente para combinar a forma de atuação na licitação. As obras ficaram com a Odebrecht (atual OEC), OAS, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Dois contratos foram assinados em dezembro de 2009 – um no valor de 1,485 bilhão de reais e outro, de 3,19 bilhões de reais. Com custo inicial de 7,5 bilhões de reais, a refinaria Abreu e Lima ainda não foram totalmente concluídas. Suas obras já consumiram 58,6 bilhões de reais.[5]Devido às investigações da Lava Jato, as obras foram paralisadas em 2015.

Retomada das obras e resultados

O projeto da refinaria prevê a implantação de dois conjuntos (trens) de refino, com capacidade total de 230 mil barris por dia. O trem 1 está em operação desde novembro de 2014, com carga autorizada de 100 mil barris por dia, atendendo, principalmente, a demanda de derivados das regiões Norte e Nordeste. [21]

Em janeiro de 2025, o presidente Lula anunciou a retomada das obras na RNEST para concluir as unidades Trem 1 e Trem 2, e a Unidade de Abatimento de Emissões (SNOX).[22] As obras do Trem 1 foram concluídas em março de 2025 e agora a unidade produz 130 mil barris de petróleo por dia, 15 mil a mais.[23]

O Plano de Negócios 2026-2030 prevê, para a Unidade SNOX, adição de 27 mil barris de petróleo por dia. [6]A evolução do projeto prevê a entrega parcial da Unidade de Destilação Atmosférica (UDA) em 2027, seguida pelo avanço das obras de destilação em 2028, que adicionarão 50 Mbpd à carga de processamento. A conclusão total do Trem 2 está programada para 2029, consolidando um incremento final de 80 Mbpd e permitindo que a refinaria atinja sua capacidade plena de produção. [22]

Ao final das obras, a Refinaria Abreu e Lima vai dobrar a capacidade produtiva para 260 mil barris de derivados de petróleo por dia. Em dezembro de 2025, a ampliação da refinaria contava com 5,7 mil trabalhadores, que podem chegar a 15 mil. Por exigir qualificação, a Petrobras disponibilizou vagas do Programa Autonomia e Renda na região, obtendo, assim, mão de obra especializada.[24]

Atualmente, a RNEST produz, prioritariamente, Diesel S-10, 12% de toda a produção da Petrobras. São 3,1 bilhões de litros de Diesel, suficientes para abastecer 6,7 milhões de caminhões. Após as obras, serão 13 milhões de litros de Diesel S10 por dia.[7]

Referências

  1. 1 2 «Dados técnicos da Refinaria Abreu e Lima». Petrobras. Consultado em 22 de abril de 2026
  2. Caldas, Leo. «Fotos da construção da Refinaria Abreu e Lima». Consultado em 15 de abril de 2026
  3. «Petrobras trabalha para manter Rnest em US$18,5 bi, diz CEO». Exame. 11 de junho de 2014. Consultado em 15 de abril de 2026
  4. «Petrobras 'trabalha duro' para manter Rnest em US$18,5 bi, diz CEO». Estadão. 11 de junho de 2014. Consultado em 25 de abril de 2017
  5. 1 2 «Obras na refinaria Abreu e Lima renderam R$ 90 mi em propina a aliados do PP, PT e PSB». Estadão. Consultado em 25 de abril de 2017
  6. 1 2 3 «Plano de Negócios Petrobras 2026-2030» (PDF). Petrobras. pp. 27, 70. Consultado em 15 de abril de 2026
  7. 1 2 3 «Atividades da Petrobras em Pernambuco». Nossa Energia. 20 de fevereiro de 2026. Consultado em 15 de abril de 2026
  8. «Petrobras amplia capacidade de processamento da RNEST com conclusão de obras do Trem 1». Agência Petrobras. 27 de março de 2025. Consultado em 15 de abril de 2026
  9. "Petrobras busca fornecedores locais para a Refinaria Abreu e Lima" Diario de Pernambuco, 05/08/2009, http://www.diariodepernambuco.com.br/Economia/nota.asp?materia=20090805184757&assunto=69&onde=Economia Arquivado em 11 de janeiro de 2012, no Wayback Machine.
  10. "Chuvas atrasam obras de Abreu e Lima", Tn Petróleo, 08/04/2008, http://www.tnpetroleo.com.br/clipping/imprimir/id/508
  11. "Refinaria demite por causa das chuvas", Power, 23/04/2009, http://www.power.inf.br/pt/?p=6786
  12. "Imbróglio na Refinaria Abreu e Lima", Energia Hoje, 21/02/2009 http://www.energiahoje.com/index.php?ver=mat&mid=375531[ligação inativa]
  13. "Lula e Chavez não chegam a acordo sobre refinaria Abreu e Lima em Pernambuco", O Globo, 26/05/2009, http://oglobo.globo.com/economia/mat/2009/05/26/lula-chavez-nao-chegam-acordo-sobre-refinaria-abreu-lima-em-pernambuco-756036600.asp
  14. "Brasil e Venezuela avançam em Mercosul, mas refinaria fica para depois", BBC, 26/05/2009, http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/05/090526_lula_chavez_cq.shtml
  15. 1 2 «Rnest: o debate sobre os custos e as oportunidades da Refinaria Abreu e Lima». INEEP - Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. 19 de setembro de 2021. Consultado em 9 de março de 2024
  16. 1 2 3 «Rnest custou US$ 4,2 bi a mais do que deveria, diz CPMI da Petrobras». iG. 10 de dezembro de 2014. Consultado em 25 de abril de 2017. Arquivado do original em 26 de abril de 2017
  17. «Petrobras vai retomar obras para implantação do Trem 2 da Refinaria Abreu e Lima». CBN Recife. 29 de junho de 2023. Consultado em 9 de março de 2024
  18. «TCU identifica superfaturamento de R$ 673 milhões na Refinaria Abreu e Lima». EBC. Consultado em 7 de abril de 2017
  19. «A Refinaria Abreu e Lima e a Operação Lava Jato». Administradores. Consultado em 7 de abril de 2017
  20. Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Mateus Coutinho. «Parecer aponta superfaturamento de R$ 613 milhões em obras de Abreu e Lima». Estadão. Consultado em 7 de abril de 2017
  21. Pinto, Eduardo (21 de setembro de 2021). «O debate sobre os custos e as oportunidades da Refinaria Abreu e Lima». Aepet
  22. 1 2 «Governo Federal anuncia retomada das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco». Gov.br. 19 de janeiro de 2024. Consultado em 15 de abril de 2026
  23. Moura, Bruno (29 de março de 2025). «Petrobras amplia capacidade de produção da RNEST». Agência Brasil. Consultado em 16 de abril de 2026
  24. «Petrobras: ampliação da Rnest dobra capacidade e gera 10 mil empregos». G1. 1 de dezembro de 2025. Consultado em 16 de abril de 2026